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As primeiras 24 horas de vida do bezerro: onde começa o futuro do rebanho leiteiro
No primeiro artigo desta série, falamos sobre bem-estar animal como uma responsabilidade prática dentro da fazenda. Mais do que um conceito técnico ou uma exigência de mercado, o bem-estar deve ser entendido como a capacidade de oferecer aos animais condições reais para expressarem saúde, conforto, segurança e comportamentos próprios da espécie. Em outras palavras, produzir leite com responsabilidade também significa construir, todos os dias, uma vida que vale a pena ser vivida para os animais sob nossos cuidados.
Quando trazemos essa reflexão para a criação de bezerras leiteiras, existe uma fase que merece atenção especial: as primeiras 24 horas de vida. Esse curto período é uma das janelas mais importantes de toda a vida produtiva do animal. É nesse momento que o bezerro deixa o ambiente protegido do útero e passa a enfrentar desafios completamente novos: respirar sozinho, regular sua temperatura corporal, levantar-se, buscar alimento, entrar em contato com microrganismos do ambiente e depender das pessoas da fazenda para receber os cuidados corretos no tempo certo. Por isso, o nascimento de uma bezerra não deve ser tratado como um evento isolado. Ele é o início de uma cadeia de decisões que pode influenciar a saúde, o desenvolvimento, a longevidade e o desempenho futuro desse animal. A vaca do futuro começa a ser cuidada no primeiro dia de vida. E esse cuidado começa antes mesmo do parto.
A preparação para um bom nascimento passa pelo manejo adequado da vaca gestante, especialmente no período final da gestação. Vacas submetidas a estresse térmico, falta de sombra, lama, superlotação ou ambientes sujos chegam ao parto em piores condições. Isso pode afetar não apenas a vaca, mas também a vitalidade do bezerro ao nascer. O local do parto precisa ser limpo, seco, tranquilo, sombreado e com boa condição de cama ou piso. Parece básico, mas é justamente no básico que muitas perdas começam. Um bezerro que nasce em ambiente contaminado, úmido ou com excesso de fezes já inicia a vida exposto a maior risco de infecções. O produtor não precisa de estruturas sofisticadas para melhorar esse ponto, mas precisa de rotina, observação e critério. Durante o parto, a regra é monitorar com atenção e intervir apenas quando necessário. A pressa e o uso de força excessiva podem causar lesões na vaca e no bezerro. Quando a intervenção for necessária, ela deve ser feita por uma pessoa treinada, com higiene, calma e respeito ao processo fisiológico do nascimento.
Logo após o nascimento, o primeiro cuidado é avaliar se o bezerro respira bem, se apresenta vitalidade e se consegue reagir ao ambiente. A secagem do corpo, seja pela lambedura da vaca ou pela ação do tratador com pano limpo e seco, ajuda a estimular a circulação, reduzir a perda de calor e ativar o recém-nascido. Esse contato inicial não é apenas um detalhe afetivo. Ele tem impacto direto no conforto, na adaptação e no vigor do bezerro. Depois disso, dois manejos não podem falhar: a cura do umbigo e a colostragem.
A cura do umbigo é um dos procedimentos mais importantes nas primeiras horas de vida. O umbigo não é apenas uma estrutura externa que precisa “secar”. Ele representa uma porta de entrada para bactérias. Por meio dele, microrganismos podem alcançar estruturas internas e causar infecções graves, como onfalite, artrite, pneumonia, septicemia e outros problemas que comprometem o crescimento e o bem-estar do animal. Deste modo, a cura do umbigo deve ser feita o quanto antes, preferencialmente nas primeiras horas após o nascimento. O procedimento deve ser realizado com solução adequada, como iodo a 10%. O ideal é fazer a imersão completa do cordão umbilical em copo aplicador sem retorno e limpo, garantindo contato da solução com toda a estrutura. Também é importante lembrar que a cura do umbigo não termina no primeiro procedimento. O acompanhamento deve continuar nos dias seguintes. O umbigo deve ser observado quanto a aumento de volume, dor, secreção, mau cheiro ou dificuldade de cicatrização. E há um ponto que precisa ser claro: não adianta fazer uma boa cura de umbigo se o bezerro for colocado em um ambiente sujo, úmido ou contaminado. A higiene do local onde ele permanece é parte do tratamento.
O segundo manejo decisivo é a colostragem. O bezerro nasce praticamente sem anticorpos circulantes suficientes para protegê-lo. Isso acontece porque, durante a gestação, a placenta da vaca não permite a passagem adequada dessas defesas para o feto. Assim, a proteção imunológica inicial depende da ingestão de colostro nas primeiras horas de vida. O colostro é muito mais do que o primeiro leite. Ele fornece energia, auxilia na eliminação do mecônio, contribui para a termorregulação e entrega imunoglobulinas, que são fundamentais para a defesa do recém-nascido. Quando a colostragem falha, o bezerro fica mais vulnerável a diarreias, pneumonias, atraso no crescimento e maior risco de morte. Quando ela é bem feita, a fazenda reduz problemas sanitários e constrói uma base mais sólida para o desempenho futuro da fêmea leiteira. Uma boa colostragem deve respeitar quatro pontos principais: qualidade, quantidade, rapidez e higiene.
A qualidade do colostro não deve ser avaliada apenas pela aparência. Cor e consistência podem enganar. O uso do refratômetro de Brix é uma ferramenta simples, prática e muito útil para identificar se aquele colostro tem boa concentração de imunoglobulinas, considera-se um bom colostro aquele que apresenta pelo menos 22% de grau brix no refratrômetro. Essa é uma tecnologia acessível que ajuda a transformar uma decisão subjetiva em uma decisão técnica. A quantidade também precisa ser adequada. O bezerro deve receber volume suficiente logo na primeira mamada, considerando seu peso ao nascimento e o protocolo orientado para a propriedade. Em muitas fazendas, a falha não está apenas na qualidade do colostro, mas no baixo volume fornecido. O bezerro precisa receber colostro em quantidade compatível com sua necessidade fisiológica, recomendamos pelo menos o volume inicial de 10% do peso corporal do bezerro nas primeiras 2 horas de vida.
A rapidez é outro ponto crítico. Nas primeiras horas de vida, o intestino do bezerro está mais apto a absorver os anticorpos presentes no colostro. Com o passar do tempo, essa capacidade diminui. Por isso, atrasar a primeira mamada é um erro caro. A colostragem precisa ser uma prioridade da rotina de nascimento, não uma tarefa deixada para quando sobrar tempo. A higiene fecha esse conjunto, pois colostro de boa qualidade pode ser contaminado se for ordenhado, armazenado ou fornecido de maneira inadequada. Baldes, mamadeiras, sondas, mãos e utensílios precisam estar limpos. A higiene da colostragem é parte da saúde do bezerro.
Além da imunidade, o conforto térmico é outro cuidado essencial nas primeiras 24 horas. O bezerro recém-nascido tem maior dificuldade para manter a temperatura corporal, especialmente em dias frios, chuvosos ou com vento. Ele perde calor com facilidade e, quando precisa gastar energia para se aquecer, sobra menos energia para levantar, mamar, descansar e se desenvolver. Logo, cama seca, profunda e limpa não é luxo. É manejo básico de bem-estar. Um bezerro deitado em local úmido perde calor, gasta energia e fica mais vulnerável. Já uma cama bem manejada favorece o descanso, reduz desconforto e ajuda na conservação de calor. Em regiões ou épocas de frio, o uso de mantas térmicas pode ser uma estratégia importante, desde que associado a ambiente seco, boa colostragem e observação diária.
O descanso também precisa ser respeitado, bezerros saudáveis passam grande parte do tempo deitados. Esse comportamento não deve ser interpretado como preguiça, mas como necessidade fisiológica deles. O repouso favorece economia de energia, conforto e desenvolvimento. Quando o ambiente é inadequado, o animal deita menos, levanta mais, perde energia e pode demonstrar sinais de desconforto. Outro ponto que vem ganhando espaço nas discussões modernas sobre bem-estar é o alojamento social precoce. Por muito tempo, o isolamento individual foi visto como a única forma segura de criar bezerros. Hoje, sabemos que o contato social, quando feito com critério, higiene e monitoramento sanitário, pode trazer benefícios importantes. Bezerros alojados em pares ou pequenos grupos tendem a apresentar melhor adaptação, maior estímulo ao consumo de alimentos sólidos e melhor desenvolvimento comportamental.
Isso não significa colocar animais em grupo sem planejamento. O alojamento social exige bezerros saudáveis, boa colostragem, ambiente limpo, espaço adequado, controle sanitário e observação da equipe. Bem-estar não é improviso. É manejo com critério.
Ao olhar para as primeiras 24 horas de vida do bezerro, fica claro que cada detalhe importa. O parto em ambiente limpo, a secagem adequada, a cura correta do umbigo, a colostragem no tempo certo, o conforto térmico, a cama seca e a observação cuidadosa não são tarefas isoladas, elas formam um sistema de proteção ao recém-nascido. E aqui está um ponto central para o produtor: cuidar bem do bezerro nas primeiras horas não é apenas evitar que ele morra, mas reduzir sofrimento, prevenir doenças, melhorar o crescimento, diminuir uso de medicamentos e preparar uma fêmea com maior chance de expressar seu potencial produtivo no futuro.
A criação de bezerros é uma das áreas mais sensíveis da pecuária leiteira, e por sua vez uma das mais estratégicas. Toda vaca produtiva, saudável e longeva um dia foi uma bezerra recém-nascida que precisou de cuidado, tempo e atenção. Assim, quando falamos que cada bezerro importa, não estamos usando apenas uma frase bonita, estamos falando de ciência, de manejo, de economia e de responsabilidade. Lembre-se: as primeiras 24 horas não voltam! O que a fazenda faz nesse período pode acompanhar aquele animal por toda a vida. Cuidar bem desde o nascimento é uma das formas mais concretas de produzir leite com eficiência, respeito e bem-estar animal.
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