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O futuro do seu rebanho começa no bezerreiro: aleitamento, desenvolvimento ruminal e desempenho futuro
Quando falamos em criação de bezerras, ainda é comum tratar o aleitamento como uma etapa operacional: fornecer leite, observar se o animal mamou, lavar os utensílios e repetir o processo no próximo trato. Mas o aleitamento é muito mais do que isso.
As primeiras semanas de vida representam uma das fases de maior impacto sobre o crescimento, a saúde e o desenvolvimento da futura matriz. Existe uma relação consistente entre o desempenho pré-desmame e o desempenho produtivo posterior, embora essa resposta dependa também da genética, da sanidade e do manejo realizado nas fases seguintes. Portanto, não é correto afirmar que o aleitamento, isoladamente, determina quanto leite aquela bezerra produzirá no futuro. Mas também não podemos ignorar que uma nutrição inadequada nessa fase pode limitar a expressão do potencial produtivo do animal. E isso começa muito cedo.
Antes do leite, vem o colostro
Nenhum programa de aleitamento consegue compensar uma colostragem mal executada. Nas primeiras horas após o nascimento, o intestino do bezerro apresenta capacidade temporária de absorver as imunoglobulinas presentes no colostro, especialmente a IgG. Essa eficiência de absorção diminui progressivamente com o passar das horas. Estudos demonstram redução importante da eficiência de absorção quando o primeiro fornecimento é atrasado, reforçando aquilo que precisamos transformar em rotina dentro da propriedade: colostro bom precisa chegar rápido ao bezerro. Portanto, colostragem não pode depender de quem está trabalhando naquele turno ou de quanto o dia está corrido. Precisa existir protocolo.
Qualidade, quantidade, rapidez no fornecimento e higiene formam um conjunto. Quando um desses componentes falha, aumenta o risco de transferência inadequada de imunidade passiva e, consequentemente, de morbidade e mortalidade durante o período pré-desmame. Trabalhos recentes continuam demonstrando associação entre maiores concentrações séricas de IgG, menor ocorrência de tratamentos e melhor desempenho das bezerras.
O que precisamos entregar durante o aleitamento?
Um bom programa de aleitamento precisa trabalhar simultaneamente com três objetivos. O primeiro é saúde. Um bezerro constantemente submetido a episódios de diarreia, pneumonia ou desafio sanitário utiliza nutrientes para resposta imune e recuperação, e não para crescimento. O segundo é ganho de peso e desenvolvimento corporal. A meta não deve ser simplesmente manter o bezerro vivo até o desmame. Precisamos produzir animais que cresçam de maneira consistente, mantendo uma trajetória adequada de peso, altura e estrutura corporal. E o terceiro é desenvolvimento do sistema digestório, principalmente a transição de um animal funcionalmente monogástrico ao nascimento para um ruminante capaz de utilizar alimentos sólidos com eficiência. Esses três objetivos não competem entre si. O programa precisa entregar todos eles.
Desenvolvimento ruminal: não é o leite que desenvolve o rúmen
Ao nascimento, o rúmen ainda é pouco desenvolvido do ponto de vista funcional. Seu crescimento depende principalmente do consumo de alimento sólido e da fermentação ruminal.
Quando o bezerro começa a consumir concentrado inicial, os carboidratos fermentáveis são convertidos pela microbiota ruminal em ácidos graxos de cadeia curta. Entre eles, o butirato tem papel particularmente importante no desenvolvimento do epitélio ruminal e das papilas responsáveis pela absorção dos produtos da fermentação. Diferentes características do concentrado também modificam o padrão de fermentação e o desenvolvimento ruminal. É por isso que simplesmente aumentar o volume de leite sem estimular o consumo de sólidos não resolve todo o problema.
Mas o inverso também é verdadeiro: reduzir drasticamente o leite para obrigar o bezerro a consumir concentrado não é uma boa estratégia nutricional. O objetivo não é escolher entre crescimento corporal e desenvolvimento ruminal. Precisamos construir os dois, e existe um componente frequentemente negligenciado nesse processo: água.
Água limpa e disponível à vontade desde os primeiros dias de vida é essencial para o ambiente ruminal. É no meio aquoso do rúmen que ocorre a fermentação do concentrado. Portanto, bezerra recebendo leite não significa bezerra sem necessidade de água.
A antiga regra dos 4 litros precisa ser revista
Durante muitos anos, programas de aleitamento foram estruturados em torno do fornecimento de aproximadamente 10% do peso corporal em leite por dia. Para um bezerro de 40 kg, isso significa algo próximo de 4 litros diários. Esse volume pode suprir necessidades relativamente modestas, principalmente em condições ambientais favoráveis, mas oferece pouca margem para crescimento acelerado e para desafios sanitários ou ambientais. Por isso, programas modernos de criação trabalham frequentemente com maiores ofertas de dieta líquida, muitas vezes entre 15% e 20% do peso corporal, dependendo da concentração de sólidos, composição da dieta, idade, ambiente e objetivo do sistema. O princípio importante não é simplesmente “dar mais leite”. É fornecer mais nutrientes de maneira planejada.
Estudos mostram que maiores níveis de oferta de leite ou sucedâneo aumentam o ganho de peso pré-desmame, embora possam reduzir temporariamente o consumo de concentrado durante as fases de maior oferta líquida. Isso exige um programa de desmame bem conduzido, e não restrição nutricional precoce. Portanto, aquela frase comum no campo “se der muito leite, ela não vai desenvolver o rúmen” precisa ser analisada com cuidado. O maior consumo de leite pode reduzir o consumo de concentrado naquele momento. Isso é fisiologicamente esperado. O erro está em transformar essa observação em justificativa para subalimentar o bezerro. O manejo correto consiste em fornecer uma dieta líquida nutricionalmente adequada, água de qualidade e concentrado inicial altamente palatável desde os primeiros dias, conduzindo posteriormente uma redução gradual do leite para estimular o consumo de sólidos e preparar o animal para o desmame.
Dieta líquida: o que realmente estamos fornecendo?
Não basta decidir quantos litros o bezerro receberá. Precisamos saber o que existe dentro desses litros.
Leite integral
O leite integral apresenta excelente valor nutricional e alta digestibilidade para bezerras jovens. Entretanto, chamá-lo simplesmente de “padrão ouro” pode esconder um detalhe importante: sua qualidade microbiológica depende completamente da obtenção, armazenamento e manejo. Leite nutricionalmente excelente, mas altamente contaminado, deixa de ser uma boa dieta. Quando utilizado, precisa ter composição conhecida, baixa carga microbiana e ausência de resíduos de medicamentos.
Leite de transição
O leite produzido nas ordenhas posteriores ao colostro apresenta composição diferente do leite comercial e contém maiores concentrações de nutrientes e componentes bioativos. Por isso, existe crescente interesse em seu fornecimento durante os primeiros dias de vida. Estudos recentes indicam associação entre maior ingestão de imunoglobulinas provenientes do leite de transição, melhor crescimento e menor mortalidade pré-desmame em determinadas condições de criação. Portanto, quando disponível e manejado adequadamente, é um alimento de alto valor biológico que não deveria ser automaticamente descartado.
Sucedâneo lácteo
O sucedâneo pode ser uma excelente ferramenta dentro do sistema, principalmente quando permite maior padronização da dieta ou quando o valor comercial do leite torna economicamente interessante direcioná-lo ao tanque. Mas precisamos ler o rótulo. Proteína bruta e gordura são apenas o início da avaliação. Origem das proteínas, digestibilidade dos ingredientes, concentração de sólidos após a diluição e qualidade de fabricação interferem diretamente no resultado.
Especialmente em animais muito jovens, ingredientes de menor digestibilidade podem comprometer o desempenho intestinal. Por isso, não basta escolher o produto mais barato por quilo. O que interessa é o custo do nutriente efetivamente utilizado pelo bezerro.

Leite de descarte: economia que precisa ser analisada com cuidado
Talvez este seja um dos pontos em que mais encontramos decisões baseadas apenas no custo imediato. O leite de descarte pode conter elevada carga microbiana e resíduos de antimicrobianos. O fornecimento desse leite sem tratamento representa risco sanitário e levanta preocupação em relação à exposição de animais jovens a resíduos de antibióticos e à seleção de bactérias resistentes.
A pasteurização reduz significativamente a carga bacteriana quando realizada corretamente, mas existe um detalhe fundamental: pasteurizar não remove resíduos de antibióticos. Portanto, pasteurização não transforma automaticamente qualquer leite de descarte em um alimento de baixo risco.
Bico ou balde aberto? Vamos separar fisiologia de mito
Durante a mamada, ocorre o fechamento da goteira esofágica. Esse reflexo direciona o leite do esôfago para o abomaso, evitando sua entrada significativa no retículo-rúmen. Esse mecanismo é fundamental porque o bezerro jovem ainda não possui um rúmen preparado para receber grandes quantidades de leite.
A mamada por bico apresenta vantagens importantes, principalmente porque permite o comportamento de sucção, prolonga o tempo de ingestão e atende melhor a uma necessidade comportamental natural do animal. Entretanto, precisamos evitar uma simplificação comum: beber rapidamente ou utilizar balde aberto não significa automaticamente que o leite irá para o rúmen.
Portanto, minha preferência pelo sistema com bico continua existindo, mas por razões mais amplas: comportamento de sucção, maior tempo de alimentação, possibilidade de melhor controle da velocidade e maior aproximação do comportamento natural de mamada. Não precisamos criar um mito para justificar uma boa prática.
Temperatura do leite: mais importante do que um número é ter padrão
Outro ponto em que encontramos muita discussão é a temperatura. Tradicionalmente, recomenda-se fornecer a dieta líquida próxima à temperatura corporal, e essa continua sendo uma prática operacional adequada, principalmente porque melhora a padronização do trato. Considere como uma boa prática sempre oferecer o leite com temperatura por volta de 37º C, em todas as mamadas, em todos os dias do ano. Temperatura precisa fazer parte do protocolo.
Quando trabalhamos com sucedâneos, isso se torna ainda mais importante porque a temperatura também interfere na adequada solubilização do produto. O protocolo de mistura deve seguir a recomendação específica do fabricante.
Higienização: muitas diarreias começam no utensílio
Você pode comprar o melhor sucedâneo do mercado, utilizar excelente colostro e montar um protocolo nutricional impecável. Se o equipamento de aleitamento estiver contaminado, o sistema continua vulnerável.
Resíduos de gordura e proteína aderidos aos baldes, mamadeiras, mangueiras, válvulas e bicos favorecem a formação de biofilmes. Depois de estabelecido, o biofilme protege comunidades bacterianas e dificulta muito a ação dos produtos de limpeza. É por isso que olhar para um balde e considerá-lo “aparentemente limpo” não é suficiente.
Uma rotina eficiente precisa trabalhar com sequência:
- Desmontagem dos componentes: bicos, válvulas, mangueiras e conexões precisam ser acessados individualmente.
- Pré-enxágue: o primeiro objetivo é remover resíduos de leite sem promover intensa coagulação das proteínas sobre a superfície.
- Lavagem com detergente adequado: utilizar produto indicado para equipamentos de alimentação, respeitando concentração, temperatura e tempo recomendados pelo fabricante.
- Ação mecânica: detergente não substitui escovação. Superfícies, roscas, conexões e interior dos bicos precisam ser mecanicamente limpos.
- Enxágue e sanitização: o sanitizante deve ser apropriado para equipamentos em contato com alimentos e utilizado exatamente na concentração recomendada.
- Secagem completa: equipamento lavado e armazenado úmido continua oferecendo condições para multiplicação microbiana. Baldes e mamadeiras devem secar completamente, preferencialmente invertidos em superfície limpa e ventilada.
Também precisamos tomar cuidado para não atribuir a um único sanitizante a capacidade de controlar todos os agentes envolvidos nas diarreias neonatais. Patógenos diferentes apresentam resistências ambientais diferentes. Por isso, higiene eficiente não depende de um “produto milagroso”. Depende de protocolo, concentração, temperatura, ação mecânica, tempo de contato e secagem.
O futuro da vaca começa muito antes da primeira lactação
Quando olhamos para uma vaca adulta em produção, é fácil atribuir seu desempenho à genética, à dieta de lactação ou ao manejo do lote. Mas parte dessa história começou anos antes:
- Começou no colostro fornecido nas primeiras horas.
- Na quantidade de nutrientes recebida durante o aleitamento.
- Na água disponível desde os primeiros dias.
- No concentrado que precisava estar fresco e palatável.
- Na mamadeira que precisava ser lavada corretamente.
- Na diarreia que deveria ter sido prevenida.
- Na decisão de não restringir leite simplesmente para economizar alguns reais por dia.
Criação de bezerros não é uma fase de espera até o animal crescer. É uma etapa produtiva do sistema leiteiro. Cada decisão tomada no bezerreiro interfere em saúde, crescimento, idade ao primeiro parto, custo de reposição e potencial de desempenho do rebanho. Por isso, quando falamos em aleitamento, não estamos falando apenas de quantos litros colocar no balde. Estamos falando de precisão de manejo. Ele é construído todos os dias. E o futuro do seu rebanho começa muito antes de a primeira gota de leite chegar ao tanque.
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