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Desmame de bezerras leiteiras: a transição não pode interromper o crescimento
O desmame costuma ser definido como o momento em que o leite deixa de ser fornecido à bezerra. Fisiologicamente, porém, essa definição é pequena demais para o que realmente está acontecendo.
Desmamar significa conduzir um animal que dependia majoritariamente da dieta líquida para uma condição em que consegue sustentar seu crescimento a partir dos alimentos sólidos. Para que isso aconteça bem, não basta retirar o leite. É preciso ter preparado a bezerra para não precisar mais dele como principal fonte de nutrientes. Essa diferença muda completamente a forma de conduzir o manejo.
Uma bezerra pode ter atingido a idade prevista no protocolo e ainda não estar preparada para o desmame. Da mesma maneira, duas bezerras nascidas no mesmo dia podem chegar a essa fase em condições bastante diferentes. Por isso, olhar apenas o calendário é insuficiente.
O melhor indicador está no próprio animal.
Antes de retirar o leite, precisamos construir um ruminante
Ao nascimento, o rúmen da bezerra ainda é pouco desenvolvido e tem participação limitada na digestão. Nessa fase, o leite é direcionado predominantemente ao abomaso por meio do reflexo da goteira esofágica, enquanto o trato gastrointestinal passa por profundas transformações nas primeiras semanas de vida.
À medida que a bezerra começa a consumir concentrado, água e fibra, ocorre colonização microbiana, inicia-se a fermentação ruminal e aumenta a produção de ácidos graxos de cadeia curta. Entre eles, butirato e propionato têm participação importante no desenvolvimento do epitélio ruminal. Ou seja: o rúmen não amadurece porque a bezerra ficou mais velha. Ele amadurece porque começou a funcionar. É exatamente por isso que a dieta sólida antes do desmame merece tanta atenção.
Concentrado inicial de boa qualidade, palatável e renovado frequentemente estimula o consumo e fornece substrato para fermentação. A oferta adequada de fibra também participa do desenvolvimento físico e funcional do trato digestivo e do comportamento de ruminação. Evidências recentes mostram, inclusive, que os efeitos do volumoso dependem de fatores como fonte, quantidade, forma de fornecimento e composição do concentrado; portanto, a recomendação não deve se resumir simplesmente a “dar ou não dar feno”. E existe outro componente que não pode ser negligenciado: água.
Leite não substitui água
Ainda é comum encontrar bezerreiros em que a água é oferecida tardiamente porque se considera que o leite seria suficiente para hidratar o animal. Do ponto de vista do desenvolvimento ruminal, esse raciocínio é inadequado.
O leite ingerido é direcionado principalmente ao abomaso. A água de bebida, por outro lado, fica disponível no rúmen e participa do ambiente necessário para fermentação microbiana e utilização dos alimentos sólidos. Bezerras começam a consumir água muito cedo, e trabalhos experimentais mostram benefícios de disponibilizá-la desde os primeiros dias de vida. A importância desse recurso aumenta ainda mais em condições de temperatura elevada. Portanto, quando observamos baixo consumo de concentrado, antes de concluir que “a bezerra não gosta da ração”, precisamos olhar para todo o sistema.
A água está limpa? É facilmente acessível? O concentrado está fresco? Existe sobra velha no cocho? A altura dos recipientes é adequada? O animal está saudável? A dieta líquida e o programa de aleitamento estão coerentes com a estratégia de desmame?
Mais uma vez, o manejo precisa ser interpretado como processo, e não como um conjunto de tarefas isoladas.
Então, quando a bezerra está pronta para desmamar?
Idade importa, mas não deveria decidir sozinha. O consumo consistente de alimento sólido é um dos indicadores mais úteis de preparação para o desmame porque mostra que a bezerra está desenvolvendo capacidade para substituir progressivamente os nutrientes fornecidos pelo leite.
As recomendações de consumo variam entre programas de criação, tipo de concentrado, raça, peso corporal e estratégia de aleitamento. A própria literatura científica utiliza diferentes limites para iniciar e finalizar o processo de desmame. Isso torna inadequado transformar um único número em regra universal. O princípio mais consistente é outro: a retirada do leite deve acompanhar a capacidade individual da bezerra de consumir sólidos em quantidade suficiente para sustentar seu crescimento.Peso corporal, ganho de peso, condição clínica, idade e vigor complementam essa avaliação.
Uma bezerra que chegou à idade prevista, mas apresenta baixo consumo, doença recente ou crescimento insatisfatório está nos dizendo que alguma etapa anterior precisa ser revista. Antecipar o desmame não corrige esse problema. Apenas transfere para o período seguinte um animal ainda despreparado.
Por isso, a pergunta não deveria ser apenas: Quantos dias essa bezerra tem? Mas se ela consegue manter seu crescimento quando retirarmos o leite?

Retirar leite de uma vez ou preparar a transição?
A forma como o leite é retirado também interfere na resposta da bezerra. Programas abruptos exigem que o animal substitua rapidamente uma importante fonte de energia e nutrientes por alimento sólido. Quando o consumo de concentrado ainda não é suficiente, essa mudança pode resultar em maior manifestação de fome, redução do ganho de peso e dificuldade de adaptação.
A retirada gradual oferece uma oportunidade para aumentar o consumo de sólidos enquanto a participação do leite na dieta diminui. Uma revisão sistemática de estudos sobre desmame encontrou, de maneira geral, efeitos positivos ou pelo menos ausência de prejuízo sobre crescimento quando o desmame ocorreu em idades mais tardias, por períodos mais longos, baseado no consumo de concentrado ou por estratégias graduais. A mesma revisão chama atenção, porém, para a ausência de uma receita única: quantidade de leite fornecida anteriormente e consumo individual modificam a resposta ao método utilizado. Isso é particularmente relevante nos sistemas modernos de aleitamento, nos quais bezerras podem receber maiores quantidades de leite.
Quanto maior a dependência nutricional da dieta líquida, mais cuidadosa precisa ser sua retirada. Não se trata de provocar fome para obrigar a bezerra a comer. O objetivo é criar uma transição em que o aumento do consumo de sólidos acompanhe progressivamente a redução do leite.
Desmame não deve significar uma semana de mudanças
Existe outro erro frequente: transformar o desmame em um pacote de manejos. Retira-se o leite, muda-se a bezerra de instalação, forma-se um novo lote, troca-se a dieta e ainda se aproveita a oportunidade para realizar outros procedimentos.
Para a rotina da fazenda pode parecer eficiente. Para a bezerra, significa somar diferentes desafios exatamente em um dos períodos de maior mudança nutricional e comportamental. O princípio deveria ser o oposto: reduzir mudanças simultâneas sempre que possível. Após a retirada completa do leite, manter temporariamente estabilidade de ambiente, dieta e grupo permite acompanhar se o consumo de sólidos continua aumentando e se o crescimento está sendo mantido antes de introduzir novos desafios.
Isso não significa estabelecer um número rígido de dias para todas as propriedades. Significa compreender o princípio fisiológico e comportamental envolvido: primeiro estabilizamos uma mudança; depois introduzimos a próxima. Esse cuidado também melhora a capacidade de diagnóstico. Quando tudo é alterado ao mesmo tempo e a bezerra perde desempenho, fica difícil identificar onde o processo falhou.
O lote pós-desmame também precisa ser planejado
A entrada em alojamento coletivo acrescenta outro componente à transição: o ambiente social. Interagir com outras bezerras é importante, mas agrupamento também modifica competição por alimento, exposição a agentes infecciosos e dinâmica de descanso. Por isso, formação de lotes relativamente homogêneos, densidade adequada e espaço suficiente de cocho e bebedouro precisam fazer parte do planejamento.
Nesta fase, olhar o lote não é suficiente. Precisamos continuar olhando cada bezerra. Quem permanece afastada? Quem chega ao cocho, mas não consegue comer? Quem reduziu consumo? Quem apresenta secreção nasal, tosse ou alteração de comportamento? Quem deixou de acompanhar o desenvolvimento das companheiras?
O período pós-desmame não deveria representar o momento em que o animal deixa de receber atenção individual porque passou a fazer parte de um grupo.
O desmame termina quando o crescimento continua
Talvez essa seja a melhor forma de avaliar se o manejo funcionou. O objetivo não é simplesmente conseguir retirar o leite em determinada idade. É fazer isso sem criar uma ruptura importante na trajetória de crescimento do animal. Quando observamos queda acentuada de ganho de peso, consumo insuficiente, vocalização persistente, maior ocorrência de doenças ou dificuldade de adaptação após o desmame, esses sinais precisam ser tratados como informação sobre o processo e não como consequências inevitáveis dessa fase.
Um bom programa de criação prepara a bezerra antes de retirar o leite, acompanha sua resposta durante a transição e continua avaliando o animal depois dela. Porque o desmame não começa no dia em que diminuímos o leite. Ele começa muito antes, quando oferecemos água, concentrado, fibra, saúde e condições para que o rúmen se desenvolva. E não termina no último fornecimento, e sim quando aquela bezerra demonstra que consegue seguir crescendo bem sem ele.
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